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domingo, agosto 30, 2026

O francês que tenta vender o audiovisual brasileiro para os investidores da Faria Lima

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Thierry Peronne, economista francês, se apaixonou pelo cinema na infância e, após se mudar para o Brasil em 2001, fundou a Investimage Asset Management em 2008, focando no audiovisual como classe de ativos.

A empresa caba de lançar três novos fundos, aumentando para nove o total em 18 anos, com a meta de superar R$ 100 milhões sob gestão.

A Investimage já financiou cerca de 60 filmes e séries, com um portfólio diversificado que inclui desde comédias populares até produções aclamadas.

Os investimentos são realizados através do Funcine, que permite deduções fiscais e busca mitigar riscos.

A valorização de ativos, como a participação na Conspiração Filmes, demonstra o potencial do investimento privado no setor.

Apesar do crescimento do mercado audiovisual, a baixa maturidade das produtoras e a centralização da propriedade intelectual dificultam a atração de capital.

Recentes atualizações na regulamentação do Funcine visam aumentar a segurança e a transparência para investidores.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Francês de Marseille, Thierry Peronne descobriu ainda criança a paixão pelo cinema. Mais tarde, a formação em economia fez com que ele passasse a olhar para as produções audiovisuais também pelo ângulo dos negócios. A combinação do fascínio pela arte com o pragmatismo econômico terminou por dar o tom de sua carreira. E Peronne foi administrar carteiras de investimentos voltadas à indústria cinematográfica.

Em 2001, o economista veio ao Brasil para um ano sabático. O que seria uma passagem temporária pelo Rio de Janeiro se transformou em uma trajetória de mais de duas décadas no país. E, a partir de 2008, em uma nova frente profissional: a Investimage Asset Management, holding fundada por ele e uma das pioneiras em tratar o audiovisual brasileiro como uma classe de ativos alternativos e fonte de retorno financeiro.

Agora, a empresa acaba de lançar mais três veículos de investimento, todos com administração fiduciária da ID CTVM. Com isso, sobe para nove o número de fundos estruturados nos últimos 18 anos.

Com o Banco Mercantil como cotista majoritário, um dos novos veículos já captou R$ 3 milhões e tem a meta de chegar a R$ 20 milhões até o fim do ano. Os outros dois estão sendo estruturados em parceria com terceiros. Com R$ 65 milhões sob gestão, com a capitalização das estruturas recém-criadas, a Investimage estima superar a MARCA de R$ 100 milhões.

Ao longo de sua história, a gestora já financiou cerca de 60 filmes e séries, entre outros projetos — algo em torno de R$ 400 milhões em bilheteria. O portfólio reúne produções de perfis bastante distintos.

De comédias de apelo popular, como Minha Irmã e Eu, Vai que Cola e Os Farofeiros, a títulos mais sofisticados do ponto de vista estético e conceitual, como o aclamadíssimo Cidade de Deus e os premiados Bingo: O Rei das Manhãs e Faroeste Caboclo.

Juntos, todos os projetos receberam cerca de R$ 100 milhões em aportes. “Se pensarmos no mercado de capitais, é um volume pequeno”, diz Peronne, em conversa com o NeoFeed. “Mas, como investimento privado no audiovisual brasileiro, é bastante coisa.”

Afronta à arte?

Distantes do capital de risco e apoiadas sobretudo em incentivos públicos, as produções no Brasil se consolidaram sob uma espécie de romantismo estrutural — em que o idealismo e a dedicação dos realizadores compensavam a escassez financeira.

A preocupação com o lucro soava quase como uma afronta à arte. “Mas, não existe indústria sem dinheiro”, pontua o empresário.

Os aportes da Investimage acontecem por meio do Fundo de Financiamento da Indústria Cinematográfica Nacional (Funcine). Autorizado em 2001 e regulamentado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), o Funcine traduziu o audiovisual para a linguagem da Faria Lima.

“Não existe indústria sem dinheiro”, diz Thierry Peronne, sobre a importância do capital privado no audiovisual brasileiro (Foto: Divulgação)

Além da perspectiva de retorno financeiro, o mecanismo permite a dedução de 100% do valor aplicado, até o limite de 6% do imposto de renda devido para as pessoas físicas e de 3% para as jurídicas.

O Funcine prevê o investimento em uma única produção. Nesse caso, é  tudo ou nada. Se o projeto flopar, ainda assim, o prejuízo real é amortecido pelo benefício fiscal. No modelo de multiprojetos, os recursos são distribuídos entre diferentes ativos de um mesmo portfólio, o que ajuda a diluir o impacto de eventuais perdas.

E o leque de alocação engloba todos os elos da cadeia audiovisual e até games — recentemente integrados à categoria como obras audiovisuais interativas. A aquisição de participação societária é o grande entusiasmo de Peronne. “É mais desafiador, mais apaixonante”, diz.

Valorização de 96%

A preferência não é subjetiva. “Na tese corporativa, o potencial de retorno pode chegar entre três e quatro vezes o capital investido”, explica. “O audiovisual brasileiro ainda é bastante pulverizado, o que abre espaço para consolidação e valorização das empresas. A ideia é investir no crescimento dessas companhias para, no futuro, realizar uma venda estratégica ou até um IPO.”

É essa lógica de valorização e posterior saída que está agora em curso na Conspiração Filmes. Entre 2009 e 2010, a Investimage adquiriu uma fatia da produtora carioca por R$ 9,37 milhões. Hoje, essa fatia da companhia vale R$ 18,37 milhões, desconsiderando os incentivos fiscais.

Uma valorização de 96% — índice próximo ao registrado pela classe de ativos alternativos formada por peças da alta relojoaria.

Fundada em 1991, a Conspiração se tornou uma potência do cinema nacional, com cinco das maiores bilheterias da história e nove indicações e uma vitória no Emmy Latino. A entrada de capital privado ajudou o estúdio a ampliar as fontes de receita e reduzir a dependência do fomento estatal. Além da Investimage, entre os investidores estão o Icatu e a Rio Bravo.

As ações de M&A da holding de Thierry também buscam combater a fragmentação do setor. Um caso emblemático aconteceu em 2015, quando a gestora  financiou e arquitetou a fusão entre a paulistana Glaz Entretenimento e o estúdio carioca Copa Studio.

A operação fez da companhia um dos grandes ecossistemas de animação independente na América Latina. Desde então, a Copa foi indicada três vezes ao Emmy.

Uma nova fase

O vigor institucional da Conspiração e da Glaz mostra o potencial do investimento privado no audiovisual brasileiro. Talento e competência existem. Falta dar-lhes escala — e transformar escala em negócio e negócio em indústria.

Aqui, no entanto, o pequeno porte da maioria das produtoras, a baixa maturidade da governança e a centralização da propriedade intelectual em poucos sócios dificultam a aproximação com o mercado de capitais.

Não à toa, entre 2019 e 2024, apenas 14 projetos foram financiados via Funcine. Ou seja, menos de 1% das obras apoiadas por incentivos fiscais no período, segundo a Ancine. A timidez do investimento corporativo privado, entretanto, contrasta com a pujança do audiovisual na economia.

Hoje, o segmento movimenta cerca de R$ 70 bilhões anuais — o equivalente a 0,6% do PIB nacional, segundo dados da Oxford Economics e da Motion Picture Association.

Entre 2024 e 2025, o faturamento das bilheterias de filmes produzidos no país saltou de R$ 84 milhões para R$ 251 milhões. E o market share do cinema nacional em relação a todos os ingressos vendidos no país subiu de 3% para mais de 10%.

Agora, o setor entra em uma nova fase. Em maio, a Ancine atualizou a regulamentação do Funcine, alinhando-a ao marco da CVM. Ao estabelecer mecanismos de governança e de gestão de conflitos de interesse, a mudança deve aumentar a segurança e a transparência para o investidor.

É um passo importante para que a Faria Lima deixe de ver o audiovisual apenas como uma indústria de projetos e passe a encará-lo também como uma classe de ativos — capaz de atrair os cheques dos investidores institucionais.



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