
Alexandre Ratsuo Uehara é uma das grandes referências quando o assunto é a relação entre Brasil e países asiáticos, especialmente o Japão. Doutor em Ciência Política pela USP, atuou como analista político-econômico da Japan External Trade Organization (JETRO), órgão governamental vinculado ao Ministério da Economia, Comércio Exterior e Indústria (Meti) do Japão, entre 2000 e 2007.
Também presidiu a Associação Brasileira de Estudos Japoneses (ABEJ) entre 2016 e 2018 e foi membro do Conselho Fiscal da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI) entre 2015 e 2017. Desenvolve pesquisas sobre questões asiáticas envolvendo integração econômica e relacionamentos regionais. Associado da Consultoria Empresarial Nova Investe, atualmente é coordenador acadêmico do Centro Brasileiro de Estudos de Negócios Internacionais & Diplomacia Corporativa (CBENI & DiC), da ESPM, além de professor de Relações Internacionais na mesma instituição.
Ele acompanha de perto o relacionamento entre Brasil e Japão e se mostra otimista com as oportunidades abertas entre os dois países em temas como exportação de alimentos, tecnologia, terras raras e integração das cadeias produtivas. Tudo isso apesar das diferenças ideológicas entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, considerada por muitos a “Trump asiática”. O BRAZIL ECONOMY conversou com Uehara sobre esses e outros temas. Confira.
O Japão é um parceiro comercial importante do Mercosul e este ano os dois lados anunciaram que pretendem fechar um acordo de parceria econômica. Como o senhor vê essa possibilidade?
Entendo não só que é possível, mas também que é do interesse tanto dos países do Mercosul quanto do Japão firmar um acordo que vá além de um simples tratado de livre-comércio. Quando falamos em livre-comércio, estamos nos referindo à redução ou eliminação de tarifas alfandegárias para ampliar as importações e exportações entre os dois lados. Já uma parceria econômica representa uma relação mais abrangente e profunda. Temos que levar em consideração que, neste momento, o Japão procura alternativas para expandir seus relacionamentos internacionais, dadas as dificuldades impostas por um de seus principais parceiros, os Estados Unidos, que vêm adotando tarifas elevadas e criando obstáculos para a indústria japonesa. Esse ambiente é propício para que as negociações avancem mais rapidamente.
Pode dar um exemplo?
Vou pegar o caso específico do Brasil e o potencial de ampliar as relações com o Japão. A economia japonesa é uma das mais desenvolvidas e de maior capacidade tecnológica, com produção de robôs e inteligência artificial. São áreas nas quais os brasileiros ainda precisam avançar bastante. Então, da perspectiva do Brasil, vejo que existe potencial para uma relação mais ampla e profunda do que o simples comércio bilateral. Além disso, o Brasil perdeu muito espaço na competitividade do setor industrial. É necessária uma cooperação técnica, um adensamento e um aprofundamento das relações das cadeias produtivas entre Brasil e Japão. Portanto, não se trata apenas de exportar mais soja, minério ou carne para os japoneses, mas de ampliar essa cooperação tecnológica entre os dois países ou mesmo entre o Japão e o Mercosul como um todo.
Qual o melhor modelo de acordo na visão do senhor?
Cada negociação é única e ainda está muito no início para sabermos como os países do Mercosul vão se posicionar. Já tivemos acordos de diferentes modelos e talvez uma possibilidade seja, por exemplo, seguir o formato adotado entre o bloco sul-americano e o México, em que cada país estabeleceu inicialmente um acordo bilateral com os mexicanos e, posteriormente, esses entendimentos foram consolidados em um acordo mais amplo. Talvez isso seja mais fácil em um primeiro momento. Também existe a possibilidade de uma negociação mais abrangente entre os dois blocos, como ocorreu entre Mercosul e União Europeia, mas eu diria que esse caminho é mais complexo, porque há mais dificuldades para harmonizar os interesses de diferentes países, como demonstra a resistência da França.
Com tantas dúvidas sobre o cenário futuro do acordo, qual é sua perspectiva para que ele seja fechado?
Vai levar algum tempo. Acompanhei outras negociações envolvendo países do Mercosul, como a Alca e a União Europeia, e vejo que o Brasil precisa construir uma composição interna, já que alguns setores são favoráveis ao acordo e outros não. De maneira geral, os setores privados dos dois lados estão abertos para essa conversa, mas ainda é necessária uma formulação mais robusta. E, como não se trata apenas do Brasil, mas do Mercosul como um todo, os países precisam negociar internamente. Assim, enquanto a proposta japonesa já está sendo apresentada, os integrantes do Mercosul ainda precisam consolidar suas posições para que uma negociação bilateral possa avançar. Não é um processo simples e dependerá muito da capacidade de articulação de cada governo.
China e Estados Unidos vêm demonstrando interesse em investir nas terras raras brasileiras, já que esses minerais são fundamentais para a produção de equipamentos eletrônicos. Considerando que o Japão é um dos grandes exportadores desse mercado, deve haver uma aproximação com o Brasil para garantir acesso às terras raras?
Diria que esse é um dos principais pontos da aproximação do Japão com o Brasil neste momento. Já existe um mercado consolidado de fornecimento de alguns produtos minerais e alimentos para o Japão, mas as terras raras hoje são um tema bastante sensível para a economia e para a indústria japonesa. Como você mencionou, a indústria eletroeletrônica do Japão é muito importante, assim como a automotiva, já que atualmente os veículos dependem bastante de microprocessadores e chips. Isso envolve toda a cadeia industrial. Esses produtos dependem de terras raras e, hoje, o mundo ainda depende fortemente da China para o fornecimento desses minerais.
Isso esbarra na dificuldade histórica de relacionamento entre Japão e China…
O Japão já teve experiências difíceis com a China nesse sentido. Há alguns anos, houve a suspensão das exportações chinesas de terras raras para o mercado japonês por causa de um episódio em que o Japão prendeu a tripulação de um navio chinês. Isso mostrou o quanto o Japão é vulnerável nessa questão. Mas também representa uma oportunidade, já que precisamos recolocar os países do Mercosul, especialmente o Brasil, na cadeia industrial mundial. O Brasil não pode ser apenas um importador de bens finais. Precisa voltar a participar de maneira mais proativa do fornecimento de produtos industriais para ampliar suas exportações de maior valor agregado, não apenas no setor agropecuário, mas também na indústria.
Falando da questão agrícola, por ser uma ilha com menos espaço para produção de alimentos, o senhor considera o Brasil um parceiro importante para os japoneses na importação de alimentos, apesar da distância geográfica?
O Brasil é um parceiro importante, particularmente no caso da soja. O Cerrado brasileiro é um grande produtor e muito desse desenvolvimento ocorreu graças a uma parceria com o Japão, quando o país asiático buscou fornecedores alternativos após os Estados Unidos imporem algumas restrições. Isso ajudou a transformar o Brasil em um dos grandes produtores de soja do mundo. Mas não é só isso. Também há frutas e carnes. O Brasil era um grande fornecedor de carne para a China, mas agora os chineses impuseram algumas restrições, e o Japão surge como um mercado interessante. Por isso, a segurança alimentar deve fazer parte da pauta das negociações entre Mercosul e Japão.
O fechamento de acordos envolvendo o Brasil passa pelo relacionamento entre o presidente Lula e a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi, conhecida por seguir uma linha política parecida com a de Donald Trump. O senhor acredita que ela possa impor obstáculos ao Brasil por questões ideológicas, como fez o presidente dos Estados Unidos?
Apesar de ela estar mais à direita que Lula, o Japão busca alternativas às relações com os Estados Unidos. Por isso, a relação com o Brasil deve avançar justamente por causa do pragmatismo da primeira-ministra. Lula também tem adotado uma postura pragmática, embora mantenha alinhamentos com países que geram controvérsias. Mas um governo de direita no Japão não representa um problema para a relação com o Brasil como acontece com Trump.
A eleição deste ano no Brasil pode mudar a relação entre os dois países de algum modo?
Eu entendo que a eleição não terá impacto negativo sobre a relação bilateral nem sobre um eventual acordo com o Mercosul. Em 2024, o então primeiro-ministro veio ao Brasil para discutir diversos temas de cooperação. Já em 2025, o presidente Lula foi ao Japão e ratificou a importância da parceria estratégica entre os dois países. Eventualmente, se Lula não for reeleito, poderemos ter um governo mais à direita, que inclusive pode ter maior identificação com o perfil do governo japonês. Portanto, existem convergências que vão além dos resultados eleitorais.
Takaichi também tem uma postura mais dura em relação à China quando o assunto é liderança regional. Considerando que Pequim é o principal parceiro comercial do Brasil, isso pode atrapalhar a relação econômica entre brasileiros e japoneses?
As declarações da primeira-ministra fizeram com que a China estabelecesse uma política de maior controle sobre determinadas exportações destinadas ao Japão, deixando o país em uma posição mais sensível. Não acredito que o Japão vá impor dificuldades para negociar com o Brasil por causa da relação brasileira com a China. No entanto, os chineses podem exercer algum tipo de pressão sobre o Brasil, dependendo do que vier a ser negociado entre brasileiros e japoneses, especialmente no tema das terras raras. Ainda assim, acredito que o Brasil levará bastante tempo para se tornar um competidor relevante nesse mercado para atender o Japão. Há muitas etapas de negociação e desenvolvimento pela frente. Portanto, se houver alguma pressão da China, ela dificilmente ocorrerá no curto prazo.
Quais pautas devem evoluir mais na relação entre Brasil e Japão?
A integração das cadeias produtivas é uma das frentes mais promissoras, já que a mão de obra no Brasil continua relativamente barata. O Brasil possui uma renda per capita inferior à da China, por exemplo, o que pode favorecer sua inserção nas cadeias globais de fornecedores. Isso é positivo porque, quando o Japão investe no Brasil, não traz apenas capital e produção, mas também tecnologia. No campo internacional, Brasil e Japão compartilham a defesa de uma reforma do Conselho de Segurança da ONU e da obtenção de assentos permanentes para ambos. Embora seja uma pauta difícil de avançar, ela fortalece a aproximação entre os dois países. Essa cooperação também ocorre em iniciativas conjuntas de apoio a terceiros países, reforçando a posição de Brasil e Japão no cenário internacional.




