Saúde

O primeiro transplante de coração da Unesp

Relato do médico Marcello Laneza Felício, que coordenou a cirurgia realizada em Botucatu 

por: Marcello Laneza Felício  

Ás 22 horas e 40 minutos de 17 de maio de 2019, terminava o primeiro transplante cardíaco do centro-oeste paulista. O palco deste pioneirismo foi o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (HCFMB), meu local de trabalho desde 2005, quando fui aprovado em concurso para a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, a Unesp.

A idealização e a realização de um Programa de Transplante Cardíaco passou por várias etapas em minha vida, desde os primeiros contatos com a história deste método de tratamento da insuficiência cardíaca terminal até a concretização da primeira cirurgia que ganhou destaque nos jornais de todo o país.

A primeira dessas etapas remete ao ano de 2000, quando, durante o curso de medicina na Universidade Federal do Paraná, tive a oportunidade de participar de um estágio no sul da Itália. Assim que cheguei ao Hospital Policlínico da Universidade de Bari, fui apresentado ao chefe do serviço, o professor Luca Schinosa.

O principal mérito deste cirurgião italiano foi ter sido aluno do renomado Christiaan Barnard. Nascido na África do Sul e com estudos nos Estados Unidos, Barnard, aos 44 anos de idade, foi responsável por realizar o primeiro transplante cardíaco do mundo. Naquele momento, comecei a descobrir o quanto era fantástico e contagiante o mundo do transplante cardíaco.

Finalizado o curso de medicina na Universidade Federal do Paraná, ingressei na Residência Médica no Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo, em 2001. Neste hospital, eu estudava em um serviço no qual se realizavam todos os tipos de cirurgias cardíacas. Nesta época, a equipe do doutor José Pedro da Silva, um egresso dos bancos universitários da Unesp, estava entre os serviços que mais transplantavam no Brasil. Durante o período de minha especialização em São Paulo, tive a oportunidade de participar de muitas captações de órgãos, transplantes e cuidados pós-operatórios.

Eu nasci na cidade de Pirajuí, no interior de São Paulo, e saí muito cedo de casa para estudar. Em razão disso, em 2005, aceitei o convite para trabalhar em Botucatu, município que fica a 150 quilômetros de Pirajuí. Aprovado em concurso, comecei minha trajetória na Universidade Estadual Paulista e voltei a viver mais tempo próximo de minha família.

Na Unesp, fui muito bem acolhido pelos médicos e docentes que atuavam na Disciplina de Cirurgia Cardiovascular. O que mais me chamou atenção nesta fase em Botucatu foi a paixão que o corpo clínico tinha por esta instituição. A Disciplina de Cirurgia Cardíaca de Botucatu continuava crescendo, ampliando e diversificando seu atendimento, mas até então eu ainda não pensava em fazer o transplante de coração.

Esse pensamento começou ganhar corpo quando minha mãe adoeceu. O diagnóstico de uma doença hepática grave nos pegou de surpresa e ela foi encaminhada para o transplante de fígado. Em uma das consultas de minha mãe, reencontrei um grande amigo, o cardiologista Flavio Brito, referência em insuficiência cardíaca no Brasil. Infelizmente, minha mãe faleceu devido a complicações da doença e não teve a chance do transplante.

Durante o período em que minha mãe esteve doente, eu pude vivenciar a angústia do paciente e da família diante da expectativa de um tratamento de uma doença avançada. Foi neste contexto que amadureceu em mim a ideia de que poderia tentar contribuir com quem precisava de um transplante na minha especialidade.

Assim como Dr. José Pedro da Silva, Flávio Brito também se formou em Medicina na Unesp e tinha um grande apreço por esta Universidade.

Acompanhando os trabalhos e resultados de nossa equipe, Flávio um dia me ligou e me incentivou a montar o Programa de Transplante Cardíaco do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu.

A partir deste momento, comecei então a organizar um time, capacitando e agregando profissionais, até culminar em nosso credenciamento no final de 2018. Este processo teve grandes apoiadores, mas confesso que me deparei com muitos obstáculos. A estratégia que encontrei para lidar com esses obstáculos foi transformar as dificuldades em combustível para lutar ainda mais para que este projeto se concretizasse.
 

Hoje, o transplante de coração da Unesp é uma realidade. Celebramos essa grande realização em conjunto. Agradeço a Deus por esta emocionante oportunidade e a toda nossa equipe do HCFMB, devidamente pronta para que pudéssemos atingir o resultado que esperávamos.

O órgão chegou da Santa Casa de Jaú às 17h pelas mãos da equipe do Programa de Transplante Cardíaco do HCFMB e contou com o apoio logístico do helicóptero Águia da Polícia Militar. O receptor foi um paciente do sexo masculino de 50 anos e o procedimento levou seis horas.

Com profissionais competentes, treinados e uma infraestrutura qualificada, o maior fator limitante para um maior número de transplantes no Brasil continua sendo a doação de órgãos. Em virtude disto, quero destacar o papel da família, que em um momento de muita dor buscou forças para praticar este gesto tão nobre, possibilitando transplantar esperança a um paciente com pequena expectativa de vida.

O número de doadores de órgãos vem crescendo no Brasil. Contudo, transplantamos menos de 22% da demanda. Isso evidencia ainda mais a necessidade de mais equipes capacitadas para o transplante cardíaco.

Dr. Marcello Laneza Felício é chefe do Serviço de Cirurgia Cardiovascular do Hospital das Clínicas de Botucatu e responsável técnico pelo Serviço de Transplante Cardíaco. O médico cirurgião foi responsável por coordenar a equipe de cerca de 15 pessoas que no último dia 17 de maio concluiu, após seis horas, o primeiro transplante cardíaco do centro-oeste paulista. Mais informações em: http://www.hcfmb.unesp.br/primeiro-transplante-cardiaco-do-hcfmb-e-realizado-com-sucesso/
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