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Facilitar, lecionar ou orientar sem julgamento e com compaixão Praticando a Comunicação Não Violenta

Maria de Lurdes Zamora Damião
O que eu quero em minha vida é compaixão, um fluxo entre mim e os outros com base numa entrega mútua, do fundo do coração – Marshall B. Rosenberg
Em 2008, na Índia, comecei meu aprendizado do universo do não julgamento e da aceitação ao fazer o curso de Comunicação Não Violenta com Marshall Rosenberg, tema que será objeto desse artigo. Vamos explorar a comunicação não violenta ou CNV, para simplificar. Mas, antes, faz-se necessário refletir sobre violência e suas diversas formas.
Habitualmente, o ser humano concebe violência como a agressão verbal que humilha, constrange e deixa marcas psicológicas ou a agressão física que fere e deixa rastros físicos e psicológicos. Entretanto, existem violências mais sutis que, muitas vezes, não são consideradas como tal, mas provocam alto impacto no campo emocional e geram a contaminação dos relacionamentos.
Sutis ou não, quando a comunicação é violenta, a conexão não se estabelece entre os indivíduos, pois “muros” são construídos. A linguagem que resulta em barreiras, denominada lobal por Rosenberg, não permite que a ligação entre as pessoas aconteça, principalmente, porque predomina a ideia de que o outro é responsável pelo nosso bem-estar e, quando isso não acontece, o outro é o culpado. Terceirizamos nossa responsabilidade, aliviamos a culpa e, sobretudo, abrimos mão de nosso poder e protagonismo.
O objetivo é coagir o outro e sempre ter razão, ao mesmo tempo em que ele não é ouvido; isso impede a compreensão mútua em uma conversa. O ato de reconhecer a sua responsabilidade na situação e de controlar impulsos e afetos negativos não existe.
Tornam-se janelas, nomeadas por Rosenberg como “girafal”, as expressões de vida e de conexão com os outros, revelando necessidades e desejos, abrindo caminhos de verdadeira comunicação e possibilidades de reciprocidade.
Possibilita uma comunicação direta e empática, pois comunica interesses, busca identificar os sentimentos a cada momento e a maneira como os outros podem contribuir para o nosso bem-estar. Para que isso aconteça, um dos princípios básicos que devem ser respeitados é a observação sem julgamentos.
Fica fácil, dessa forma, imaginar as consequências de uma linguagem lobal ou girafal de um profissional de desenvolvimento humano, afinal, ele pode construir muros ou escancarar janelas com os participantes, alunos e coachees.
Habilidades comunicacionais verbais:
Habilidade
Como?
Seja claro, conciso e específico
Dizendo aquilo que realmente quer dizer, de uma forma direta.
Use frases na 1ª pessoa do singular
Não existe asserção sem o EU, que no início de uma frase demonstra empoderamento e responsabilidade por seus pensamentos, sentimentos e ações.
Empatize
Ouvindo e reconhecendo o que o outro diz sobre a sua situação, dificuldades e opiniões.
Habilidades comunicacionais não verbais:
Habilidade
Como?
Espaço pessoal
Mantenha uma distância confortável do outro.
Postura corporal
Estável e descontraída, ereta sem rigidez.
Gestos
Expressivos, mas não excessivos.
Expressão facial
A transparência entre o que sinto e o que expresso me oferece credibilidade.
Contato visual
Direto, mas não excessivo.
O comportamento não verbal é responsável por 70% de como o outro me percebe e esse é o motivo principal da necessidade de o profissional alinhar o discurso à linguagem corporal para, assim, ser mais coerente e gerar credibilidade. Isso contribui para a construção de relacionamentos interpessoais saudáveis e produtivos.
A CNV oferece uma técnica que aperfeiçoa relacionamentos pessoais e profissionais. A ênfase da técnica reside no saber expressar-se a partir de observações, sentimentos, necessidades e clareza nos pedidos, evitando-se uma linguagem classificatória ou que rotule ou enquadre os interlocutores ou terceiros.
Sua proposta envolve a revisão das ações baseadas no “piloto automático” e a busca de respostas mais conscientes. CNV é mais que uma ferramenta, é um jeito de ser, que contempla a não violência, a aceitação totalmente sem julgamento e a compaixão.
Os quatro componentes do modelo da Comunicação Não Violenta são:
1
Observação
Observe sempre, a cada momento, os próprios pensamentos, emoções e atitudes. Considere o que está de fato acontecendo, sem julgamento ou crítica, apenas constate sobre o que não o agrada e que causa mal-estar. Considere apenas os fatos e os comportamentos, pois classificar e julgar as pessoas estimula a violência.
2
Sentimento
Identifique e expresse suas emoções e sentimentos. Faça uma distinção entre sentir e pensar. O que você está observando e sentindo é diferente do que você está necessitando e pedindo para melhorar em sua vida.
3
Necessidades
Reconheça a raiz de seus sentimentos e necessidades, lembrando que necessidades estão relacionadas com seus valores e desejos, que por sua vez estão gerando os sentimentos. Entender sobre necessidades suas e do outro favorece a comunicação como um processo enriquecedor.
4
Pedido
Formule pedidos em linguagem clara, positiva e com ações concretas, lembrando que pedido é diferente de exigência.
A CNV acontece, realmente, quando a pessoa expressa seus sentimentos e necessidades sem parecer enfraquecida ou vulnerável, porque fala por si, guia o indivíduo para que ele possa reformular sua maneira de expressar-se e de ouvir o outro.
Possibilita um maior grau de profundidade no escutar, estimulando o respeito, a empatia e propicia relações baseadas na confiança mútua. Como ferramenta para resolução de conflitos, a CNV funciona para desarmar argumentos perigosos e criar conexões com família, amigos, pares e membros de equipes.
Bibliografia
ROSENBERG, Marshall B. Comunicação não violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. Trad. Mário Vilela. São Paulo: Ágora, 2006.
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