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domingo, agosto 2, 2026

A arte de ficar invisível em um dos maiores museus do mundo vira um relato sobre beleza e vida

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No livro “Toda a beleza do mundo”, Patrick Bringley compartilha suas experiências de uma década como vigilante no Metropolitan Museum of Art, em Nova York.

Contratado em um momento de luto pela morte do irmão, ele buscava um trabalho que lhe oferecesse refúgio. Bringley, formado em artes, inspirou a vida dos visitantes e dos colegas vigilantes, revelando histórias e reflexões sobre a arte.

Ele destaca a invisibilidade dos vigilantes e a riqueza humana por trás de suas funções.

A convivência diária com as obras permitidas a Bringley desenvolver ideias sobre como a arte pode ajudar a enfrentar momentos difíceis, mostrando que pessoas de diferentes épocas lidam com dores semelhantes.

O autor sugere que os visitantes do museu se percam em suas galerias, explorando diversas culturas e épocas, como forma de apreciação e reflexão.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Quem visita um museu apenas nos fins de semana para ver uma exposição talvez nem perceba a diferença entre caminhar sobre um piso de madeira ou de mármore. Mas quem passa oito horas por dia em pé diante das obras aprende rapidamente que o assoalho de madeira tem uma maciez, sendo muito mais confortável para os pés do que a pedra.

Essa é apenas uma das muitas observações curiosas reunidas em Toda a beleza do mundo, de Patrick Bringley, lançada no Brasil pela editora Record. No livro, ele narra os dez anos em que trabalhou como vigilante no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, revelando os bastidores de uma das instituições culturais mais importantes do mundo.

Hoje, com 41 anos, Bringley tinha pouco mais de 20 quando foi contratado pelo museu. Na época, enfrentava a dor da morte do irmão mais velho, Tom, vítima de câncer aos 26 anos. Em busca de um trabalho que lhe oferecesse algum refúgio em dias que haviam perdido o sentido, candidatou-se, em 2008, a uma vaga de segurança no Met.

“O que mais me atraía no trabalho de vigilante era justamente o aspecto silencioso da função, essa qualidade quase fantasmagórica”, conta em entrevista ao NeoFeed. “Eu estava meio atordoado pelo luto e queria apenas permanecer imóvel naquele ambiente tão bonito e acolhedor.”

Antes de ingressar no Met, Bringley trabalhou no departamento de eventos da revista The New Yorker. Ali, sonhava um dia publicar seus textos. “Sempre fui o tipo de pessoa que anotava pequenos pensamentos em cadernos e tinha plena consciência de que ocupava ali um ponto de observação bastante singular”, explica.

Naquele momento, trabalhando no Met, porém, não tinha a menor intenção de escrever uma única linha. “Quando comecei, o trabalho me pareceu imediatamente tão tranquilo quanto se pode imaginar. Havia todos aqueles lugares belíssimos para referir-se ao olhar”, conta. “Era exatamente o que eu precisava para o estado de espírito em que me encontrava.”

O interesse pela arte vinha de muito antes. Formado em artes pela Universidade de Nova York, Bringley cresceu em uma família para qual cultura fazia parte do cotidiano. Filho de uma atriz e de um bancário apaixonado por música, que tocava piano nos fins de semana, frequentemente visitava com os pais o Art Institute de Chicago, sua cidade natal. O Met ele conheceu na infância.

Quando assumiu o posto de vigilante, porém, toda essa bagagem parecia importar um pouco.

Como informava o anúncio da vaga, não era necessário ter experiência prévia nem em arte nem em segurança. Ele seria apenas mais uma das pessoas de terno azul-marinho encarregadas de “proteger vidas e patrimônio, nesta ordem”, como escreve no livro: “E, como espantalhos, afastamos a encrenca”.

“Uma das coisas mais interessantes desse trabalho é que você acaba se tornando quase invisível, como se fosse parte do cenário. É uma espécie de camuflagem: as pessoas simplesmente não reparam em você”, comenta.

Pombinhos e caçadores de dinossauros

Um dos grandes méritos do livro é mostrar a riqueza da vida daqueles personagens que passam despercebidos diante de Goya, Michelangelo ou Van Gogh. Como o breve perfil que Bringley faz de Joseph Akakpousa, ex-empresário que emigrou do Togo para os Estados Unidos e trabalhou ao seu ladoo no museu.

“Todos esses observadores discretos são seres humanos completos, com histórias extraordinárias. Há jovens e idosos, pessoas com diferentes níveis de formação, trajetórias e experiências de vida. Logo você se dá conta da riqueza humana representada pelo corpo de vigilantes”, afirma o autor.

A convivência com a arte ajudou Patrick Bringley a enfrentar o luto pela morte do irmão (Foto: Jason Wyche)

Com 256 páginas, o livro custa R$ 89,90 (Foto: Editora Record)

Com o tempo, ele descobriu que aquela função discreta oferecia um ponto de vista privilegiado sobre a vida do museu.

Protegido por essa “disfarce”, Bringley observou durante uma década um desfile constante de visitantes — cerca de 7 milhões passam anualmente pelas galerias do Met Ao longo do tempo, ele passou a identificar alguns tipos recorrentes entre esse público.

Há os que ele chamou de “caçadores de dinossauros”, que entram no Met imaginando encontrar fósseis e esqueletos pré-históricos e se surpreendem ao descobrir que ali há apenas obras de arte e artefatos históricos.

Entre seus personagens favoritos estão os “pombinhos”, pessoas que, segundo escreve, “flutuam pelas galerias, movendo-se por espaços onde o silêncio não é constrangedor e as emoções intensas aparentemente perfeitamente naturais”.

A arte como remédio

A narrativa do cotidiano desses funcionários se entrelaça aos acontecimentos da vida do autor — como o encontro com a futura esposa e o nascimento dos filhos — e as reflexões sobre as obras do acervo. Embora tenha tido aulas de história da arte na universidade, Bringley afirma que seu aprendizado mais profundo aconteceu no contato diário com as coleções do museu.

“Foi justamente essa convivência tão próxima com a arte que me permitiu desenvolver algumas reflexões próprias, ideias que me pareceram interessantes o suficiente para serem transformadas em um livro”, conta.

Ao longo do texto, o autor constrói um receituário sobre como a arte pode ajudar as pessoas a atravessar momentos difíceis: “Penso que os museus de arte podem ajudar nesses momentos. Você pode olhar para obras que tratam justamente dessas questões”.

Segundo Bringley, esse contato ajuda a perceber que pessoas de diferentes épocas, ao longo de milênios, sentiram as mesmas dores e encontraram maneiras distintas de lidar com elas — seja buscando consolo na beleza, buscando sentido no sofrimento ou simplesmente expressando sua angústia.

“Acho que conviver com essas obras pode ser muito valioso. Muito mais do que tentar negar a dor, se fechar para ela ou simplesmente fingir que tudo voltou ao normal”, avalia.

Para quem pretende visitar o Met pela primeira vez, o autor tem um conselho simples: “O museu é tão grande que a primeira coisa a fazer é simplesmente se perder lá dentro. Entre e caminhe. Caminhe sem pressa. Dobre corredores. Passe da Grécia para Roma, do Egito para Atenas, depois para o Camboja do século XI, para o Benim do século XV. Permita-se atravessar tempos, culturas e geografias diferentes”.



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