A temporada de balanços do segundo trimestre nos Estados Unidos está entregando resultados acima das expectativas, mas a aceleração dos lucros ainda não foi suficiente para eliminar a cautela dos investidores. A combinação de tensões geopolíticas, alta do petróleo, avanço dos juros e dúvidas sobre o volume crescente de investimentos das grandes empresas de tecnologia mantém o mercado acionário preso a uma faixa estreita de negociação.
A avaliação consta do relatório Investor Positioning and Flows, do Deutsche Bank, divulgado nesta semana. Segundo os estrategistas Parag Thatte, Binky Chadha, Karthik Prabhu e Dag Workayehu, o contraste entre fundamentos corporativos robustos e aumento dos riscos explica o atual comportamento de Wall Street.
Cerca de um terço das empresas já havia divulgado seus balanços quando o levantamento foi concluído. Desse grupo, quase 90% superaram as estimativas, enquanto os lucros agregados ficaram aproximadamente 10% acima do consenso. O banco calcula que o lucro das companhias do S&P 500 caminha para crescer 34% na comparação anual no segundo trimestre, resultado superior tanto aos 26% projetados pelo mercado quanto aos 29% anteriormente estimados pelo próprio Deutsche Bank.
O avanço não está restrito às gigantes de tecnologia e comunicação. Embora esse grupo apresente expansão de 53% nos lucros, as demais empresas do índice registram crescimento de 23%, indicando uma melhora mais disseminada dos resultados corporativos.
“A temporada de resultados do segundo trimestre está superando com folga uma expectativa que já era muito elevada”, afirmam os estrategistas no relatório. Eles destacam ainda que as projeções para o terceiro e quarto trimestres e para 2027 continuam sendo revisadas para cima, movimento contrário ao padrão histórico de redução das estimativas durante as temporadas de balanços.
Apesar dos números corporativos, o posicionamento agregado dos investidores em ações caiu de uma condição moderadamente acima da média para ligeiramente abaixo da neutralidade. O indicador calculado pelo Deutsche Bank está no 36º percentil de sua série histórica desde 2010.
A retração é particularmente acentuada entre os investidores discricionários, aqueles cujas decisões dependem diretamente da avaliação de gestores. O posicionamento desse grupo recuou ao 17º percentil, menor nível desde o início de abril. Em sentido diferente, as estratégias sistemáticas, baseadas em modelos quantitativos, permanecem relativamente expostas, no 70º percentil.
Na avaliação dos estrategistas, o posicionamento dos investidores discricionários está “bem abaixo dos níveis sugeridos tanto pelos lucros quanto pelo crescimento macroeconômico”, em tradução livre. A diferença indica que parte relevante do mercado ainda não está disposta a aumentar o risco mesmo diante da melhora dos fundamentos empresariais.
Essa postura ajuda a explicar por que o S&P 500 permanece há cerca de dois meses dentro de uma faixa estreita de negociação. Segundo o relatório, o mercado voltou a se aproximar da parte inferior desse intervalo, ao mesmo tempo em que ocorre uma rotação relevante entre setores e estilos de investimento.
Saída das big techs
Um dos movimentos mais importantes está nas grandes empresas de tecnologia. O posicionamento nesse segmento havia retornado a patamares elevados antes da temporada de balanços, mas caiu rapidamente para próximo da neutralidade, no 56º percentil.
O movimento ocorre mesmo diante de resultados considerados excepcionalmente fortes pelo Deutsche Bank. A principal preocupação está no crescimento acelerado dos investimentos de capital, o chamado Capex, e na capacidade das companhias de sustentar taxas tão elevadas de expansão dos resultados.
A reação às divulgações reforça essa percepção. As empresas de tecnologia e comunicação recuaram, em mediana, 1,9 ponto percentual em relação ao S&P 500 no dia da publicação dos balanços. Para as demais companhias, o desempenho relativo ficou próximo da estabilidade.
“A rotação para fora das grandes empresas de tecnologia está, em nossa avaliação, cerca de três quartos concluída”, afirmam os estrategistas. Desde o início do movimento, em junho, tecnologia e comunicação acumulam desempenho quase 15 pontos percentuais inferior ao restante do S&P 500.
Os fluxos para fundos também mostram uma redistribuição geográfica do capital. Fundos de ações receberam US$ 30,4 bilhões na semana analisada, mas o dinheiro se concentrou principalmente na Ásia. A China captou US$ 21,3 bilhões, enquanto os Estados Unidos registraram retiradas líquidas de US$ 7,2 bilhões. Fundos dedicados ao setor de tecnologia ainda receberam US$ 4 bilhões, embora em ritmo significativamente menor.
Petróleo e juros
Além das dúvidas envolvendo tecnologia, o aumento do risco geopolítico aparece como um dos principais fatores de pressão. A escalada das tensões no Oriente Médio levou o petróleo a subir cerca de 40%, segundo o Deutsche Bank.
O WTI estava em US$ 92,20 por barril na referência utilizada pelo relatório, 51,8% acima do valor considerado justo no médio prazo pelo modelo da instituição, de US$ 60,70. Historicamente, o petróleo costuma oscilar em uma faixa de aproximadamente 30% acima ou abaixo dessa estimativa. No pico registrado em março, porém, a diferença havia alcançado 75%.
O banco identifica, portanto, um prêmio geopolítico relevante embutido nas cotações, embora ainda inferior aos extremos observados anteriormente. A volatilidade do petróleo e o prêmio dos contratos de curto prazo também aumentaram.
O impacto começa a alcançar o mercado de renda fixa. Desde o início da guerra com o Irã, no fim de fevereiro, os juros reais dos títulos americanos de dez anos avançaram mais de 70 pontos-base, enquanto os de dois anos subiram aproximadamente 170 pontos-base. O movimento acompanha uma mudança importante nas expectativas para a política monetária americana, que passaram de cortes para possíveis altas dos juros pelo Federal Reserve.
“As expectativas de inflação implícitas ainda não subiram significativamente neste mês, apesar da disparada dos preços do petróleo, e uma recuperação continua sendo um risco”, alertou o relatório.
O quadro deixa Wall Street diante de forças opostas. De um lado, os lucros corporativos crescem muito acima do esperado e as estimativas futuras continuam melhorando. De outro, petróleo mais caro, juros reais elevados, tensões geopolíticas e dúvidas sobre a sustentabilidade dos investimentos das big techs limitam a disposição dos gestores para aumentar a exposição.
O próprio Deutsche Bank, contudo, mantém uma projeção positiva para o mercado americano. O banco trabalha com alvo de 8.000 pontos para o S&P 500 em 2026 e estima lucro por ação de US$ 342 neste ano e de US$ 390 em 2027.




