O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu abandonar a estratégia predominantemente defensiva adotada diante do tarifaço de Donald Trump e abriu uma nova etapa no confronto entre Brasil e Estados Unidos. Nesta segunda-feira (27), o governo brasileiro acionou o sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC) para questionar as tarifas impostas por Washington aos produtos nacionais.
A iniciativa amplia uma disputa que já ultrapassou os limites da política comercial e ganhou dimensão diplomática. Com as eleições presidenciais brasileiras se aproximando, a decisão de recorrer à OMC também sinaliza que o Palácio do Planalto está disposto a endurecer sua reação às medidas de Trump, mesmo diante do risco de novas retaliações americanas.
Fontes do governo ouvidas pelo BRAZIL ECONOMY afirmam que Brasília já trabalha com a possibilidade de um contra-ataque da Casa Branca. Entre os cenários considerados estão a adoção de novas tarifas contra produtos brasileiros e o aumento da pressão política e comercial sobre o país.
A avaliação dentro do governo é que a abertura da disputa na OMC tende a tornar ainda mais difícil uma acomodação rápida entre os dois países. A partir de agora, Brasil e Estados Unidos passam a manter simultaneamente canais de negociação bilateral e uma controvérsia formal no principal organismo multilateral do comércio.
Mudança de estratégia
A decisão representa uma inflexão na postura adotada por Lula desde o início da escalada tarifária. Até recentemente, o governo insistia prioritariamente na negociação direta com Washington. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, autoridades brasileiras mantiveram dezenas de contatos com representantes americanos desde 2025 em busca de uma saída negociada para o impasse.
Em reunião realizada em 14 de julho, representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), do Itamaraty e da Presidência voltaram a defender junto ao representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, que as sobretaxas eram injustificadas. Na ocasião, o governo brasileiro ainda afirmava que a imposição de tarifas não seria o caminho para construir um acordo bilateral.
O cenário mudou com a efetivação das medidas. Os Estados Unidos impuseram uma tarifa adicional de 25% sobre uma parcela das exportações brasileiras após investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A ofensiva comercial alcançou setores como máquinas, madeira e vestuário, embora produtos importantes tenham recebido tratamento diferenciado.
Uma segunda frente acrescentou tarifa de 12,5% sobre importações provenientes do Brasil e de dezenas de outros parceiros comerciais, sob a alegação de falhas no combate à entrada de produtos associados ao trabalho forçado.
Com a combinação das medidas, a sobretaxa pode chegar a 37,5% sobre determinados produtos brasileiros. Segundo os dados apresentados pelo governo, aproximadamente US$ 6,6 bilhões em exportações estão expostos às novas barreiras, equivalentes a 16,5% das vendas brasileiras destinadas ao mercado americano.
Disputa na OMC
No pedido apresentado à OMC, o Brasil argumenta que as medidas americanas são incompatíveis com compromissos assumidos pelos Estados Unidos no Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio de 1994, o GATT, e com as regras multilaterais para solução de controvérsias.
A abertura de consultas é o primeiro estágio formal de uma disputa dentro da organização. O procedimento cria um período para que os dois países tentem alcançar uma solução negociada. Se isso não ocorrer, o Brasil poderá avançar para a solicitação de um painel encarregado de examinar juridicamente as medidas.
O movimento, portanto, não significa uma retaliação tarifária imediata de Brasília. Politicamente, porém, representa uma mudança relevante: o governo deixa de concentrar sua resposta exclusivamente no diálogo bilateral e transforma a contestação às medidas de Trump em uma disputa formal dentro do sistema multilateral de comércio.
A decisão também coloca o Brasil ao lado de países que passaram a recorrer aos instrumentos internacionais diante da nova política tarifária americana. O pedido brasileiro de consultas contesta tanto a tarifa de 25% decorrente da investigação específica contra o país quanto as medidas adicionais relacionadas à investigação sobre trabalho forçado.
Confronto político
O problema para Brasília é que a disputa comercial está cada vez mais conectada às divergências políticas entre Lula e Trump.
O próprio governo brasileiro sustenta que parte da escalada promovida pelos Estados Unidos teve motivação política. Em declaração pública neste mês, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o Brasil vinha buscando uma solução negociada e acusou Washington de apresentar demandas consideradas excessivas durante as conversas bilaterais.
Ao recorrer à OMC, Lula assume o risco de aprofundar esse embate justamente no período em que a campanha presidencial brasileira tende a ocupar progressivamente o centro da agenda política.
Para o Planalto, a estratégia permite apresentar o Brasil como defensor das regras multilaterais diante de medidas unilaterais dos Estados Unidos. Para Trump, porém, a contestação brasileira pode ser interpretada como mais um enfrentamento de um governo que Washington já vinha pressionando por questões econômicas e políticas.
É nesse ponto que cresce o risco de uma nova rodada de medidas. Fontes do governo ouvidas pelo BRAZIL ECONOMY dizem que não existe expectativa de que Trump recue simplesmente em razão da abertura do processo na OMC. Ao contrário, Brasília se prepara para a possibilidade de novas tarifas e de outras formas de pressão americana.
Escalada bilateral
A perspectiva é de uma relação mais conflituosa nos próximos meses.
No campo comercial, empresas brasileiras terão de lidar com tarifas que reduzem competitividade no mercado americano e podem obrigar exportadores a buscar novos destinos. Máquinas e equipamentos, produtos de madeira, calçados, móveis, confecções, gorduras e óleos estão entre os segmentos atingidos.
Na esfera política, a disputa tende a alimentar discursos dos dois governos. Lula ganha espaço para transformar a defesa da soberania econômica e das regras multilaterais em elemento de sua narrativa às vésperas da eleição. Trump, por sua vez, tem utilizado tarifas como instrumento central de sua política econômica e externa, impondo novas barreiras a dezenas de parceiros comerciais.
O acionamento da OMC, dessa forma, MARCA mais do que uma reação jurídica ao tarifaço. Ele encerra uma etapa em que Brasília apostava prioritariamente na contenção do conflito e inaugura outra, na qual o governo brasileiro aceita enfrentar Washington simultaneamente nos terrenos comercial, diplomático e político.
A possibilidade de negociação permanece aberta, inclusive porque as consultas fazem parte do próprio mecanismo da OMC. Mas, às vésperas da disputa presidencial brasileira e diante de um governo americano disposto a utilizar tarifas como instrumento de pressão, o movimento de Lula aumenta o custo político de um recuo dos dois lados.
O resultado é que Brasil e Estados Unidos entram em uma fase mais imprevisível da relação bilateral, com uma disputa comercial formalizada na OMC e Brasília já se preparando para a próxima reação de Donald Trump.




