A Águas do Rio transformou o Complexo da Maré, um dos territórios urbanos mais desafiadores do país, em vitrine de sua estratégia para demonstrar que o saneamento básico pode reunir retorno financeiro, impacto socioambiental e segurança para investidores. Controlada pelo grupo Aegea, que tem entre seus acionistas o fundo soberano de Cingapura (GIC) e a Itaúsa, a companhia aposta que grandes intervenções em áreas historicamente negligenciadas podem ampliar o interesse de investidores nacionais e estrangeiros pelo setor.
Desde que assumiu, em novembro de 2021, a operação dos serviços de água e esgoto em grande parte da capital fluminense e da região metropolitana, a concessionária passou a executar um plano de investimentos de R$ 39 bilhões ao longo da concessão. Desse total, R$ 15,4 bilhões correspondem ao pagamento da outorga e R$ 24,4 bilhões serão destinados à ampliação e universalização dos serviços de abastecimento de água e coleta e tratamento de esgoto.
O projeto considerado mais emblemático pela companhia está justamente no Complexo da Maré. Com investimento previsto de R$ 120 milhões em dois anos, as obras buscam implantar uma nova infraestrutura de esgotamento sanitário para uma população estimada em cerca de 200 mil moradores distribuídos por 16 comunidades. A expectativa é impedir que aproximadamente 1,3 bilhão de litros de esgoto por mês continuem sendo despejados na Baía de Guanabara.
Segundo Anselmo Leal, diretor-presidente da Águas do Rio e responsável pela relação com investidores, o primeiro obstáculo enfrentado pela empresa foi vencer o descrédito da população em relação ao saneamento no estado.
“O que a gente viu no Rio de Janeiro é que as pessoas não acreditavam no saneamento. A gente lembra que a promessa de principal legado das Olimpíadas de 2016 era despoluir a Baía de Guanabara. Depois, o Eike Batista também prometeu o mesmo na Lagoa Rodrigo de Freitas e nada. Nossas pesquisas antes de assumir a operação mostravam que a população não acreditava que haveria saneamento na cidade e região metropolitana”, afirmou.
Para reduzir os impactos das intervenções em uma região formada por ruas estreitas, becos e vielas, a empresa adotou um método construtivo que utiliza equipamentos subterrâneos conhecidos como “tatuzinhos”. As máquinas escavam e instalam as tubulações simultaneamente, evitando grandes escavações e minimizando a interrupção da circulação de moradores e veículos. Paralelamente, redes secundárias serão implantadas para conectar imóveis ao novo sistema coletor.
Além da melhoria sanitária, a concessionária destaca que projetos dessa natureza despertam o interesse de investidores voltados a iniciativas de impacto social.
“A turma que procura propósito na aplicação de capital encontra em saneamento a possibilidade de retornar o capital investido com o devido prêmio, além de gerar o legado social levando saúde e dignidade para quem não tem. Por exemplo, nosso trabalho não é despoluir o rio Ramos, mas quando você tira esgoto da casa das pessoas e trata, isso automaticamente despolui o rio. É um efeito colateral e isso faz com que os fundos de propósito, que são fundos de investimento com olhar social, olhem para gente como um lugar que vale a pena apostar. É assim que conseguimos atrair a Itaúsa para uma empreitada dessas”, disse Leal.
A operação em uma das maiores favelas do país exige, no entanto, uma estratégia específica de relacionamento com a comunidade. A Maré convive com a atuação de facções criminosas e milícias, além da limitada presença do Estado em diversas áreas.
De acordo com Diego Dal Magro, diretor de Operações da Águas do Rio, a aproximação com lideranças locais foi decisiva para viabilizar as obras.
“O caminho que encontramos é o da aproximação com líderes comunitários que conhecem as peculiaridades da Maré, justamente por viverem lá. Eles ajudam a nos dar segurança para que nossas equipes entrem para trabalhar tranquilamente nas ruas das comunidades”, afirma. O executivo acrescenta que parte relevante dos trabalhadores contratados para o projeto é formada por moradores da própria região.
A reportagem do BRAZIL ECONOMY acompanhou as obras e verificou que a região ainda enfrenta problemas históricos, como esgoto a céu aberto, acúmulo de lixo, ligações clandestinas de energia e forte presença do crime organizado. Em meio a esse cenário, moradores acompanham com expectativa a execução dos serviços, esperando que a nova rede elimine problemas recorrentes, como o retorno de esgoto para dentro das residências durante períodos de chuva.
Desde o início da concessão, a Águas do Rio informa ter investido R$ 6,3 bilhões em obras de modernização dos sistemas de água e esgoto, permitindo que cerca de 621 mil pessoas passassem a receber abastecimento regular de água pela primeira vez. Ao mesmo tempo, a empresa também enfrentou episódios de crise, como o rompimento de uma adutora em 2024, que resultou na morte de uma moradora e levou à aplicação de multa pelos órgãos estaduais de defesa do consumidor.
Para Leal, conquistar a confiança da população tornou-se uma condição tão importante quanto executar as obras previstas no contrato.
“Havia e há uma impressão ruim do serviço da Cedae e isso fez com que tivéssemos que mudar nossa estratégia de entrada, desde a maneira que colocamos nossa MARCA. Decidimos contratar oito mil pessoas, sendo que cinco mil moram em comunidades, além de colocar mais de dois mil carros rodando pela cidade. A gente precisa construir uma companhia que conquiste a licença social. O dia que os moradores entenderem que a gente não atende mais da maneira correta, perdemos o contrato. Temos que mostrar a conexão com os territórios”, afirmou.
O executivo também minimiza os impactos da instabilidade política fluminense sobre a segurança dos investimentos de longo prazo. Nos últimos anos, o estado acumulou uma sucessão de crises envolvendo governadores e investigações por corrupção.
“A gente acredita nas instituições brasileiras e na segurança jurídica. Claro que em determinados momentos o Brasil vive de apagões e algumas intempéries político-policiais ocorrem causando maior medo nos tomadores de decisões. Mas as instituições administrativas caminham e as agências reguladoras têm sua independência. Quando isso falha, o Judiciário socorre procurando o interesse comum, além do papel importante do Ministério Público. Em uma jornada de 35 anos as coisas se acertam”, avaliou.
Na avaliação da companhia, o marco legal do saneamento, aprovado em 2020, abriu uma nova fase para o setor ao ampliar a participação da iniciativa privada e criar condições para acelerar a universalização dos serviços. Hoje, cerca de 84% dos brasileiros têm acesso à água potável, enquanto menos de 56% contam com coleta de esgoto, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento.
Leal afirma que o novo ambiente regulatório permite direcionar investimentos para regiões que antes eram consideradas economicamente inviáveis.
“Muitas companhias públicas nasceram na década de 1970 para fazer os serviços financiados pelo Estado, mas esse modelo se esgarçou na década de 1980. Diversas dessas companhias estaduais estão em quase processo falimentar e o marco regulatório cria estímulos para que estados apostem em um arcabouço de concessão que envolva sociedade civil e capital privado”, disse.
Para o executivo, a transformação promovida na Maré pretende servir de exemplo de como grandes projetos de infraestrutura podem combinar desenvolvimento urbano, impacto ambiental e retorno ao investidor.
“Todas as vezes que o Brasil se atreveu a criar uma política pública estruturante deu certo. Os marcos dos setores elétrico e de telefonia são exemplos. O saneamento nunca trouxe uma pauta positiva perceptível porque enterrar tubo nunca deu voto. Com o marco legal surgiu um ambiente em que o ecossistema financeiro consegue viabilizar investimentos em áreas antes consideradas inviáveis. Isso induz uma transformação no Brasil”, acrescentou.




