Depois de 28 anos assistindo do sofá, a Noruega não foi à Copa do Mundo deste ano a passeio.
Sentimos isso na pele.
Mas não bastasse estar praticando o melhor futebol da sua história, a seleção nórdica criou um branding em torno de suas origens vikings que vem lhe rendendo muitos fãs ao redor do globo.
As referências estão nas fotos que a delegação tirou antes de viajar para os EUA, nos uniformes produzidos pela Nike e no canto/coreografia da torcida norueguesa – a infame remada “Ro!”, que tomou conta dos estádios da Copa e das redes sociais.
A Federação Norueguesa de Futebol diz que sabia que sua seleção seria associada aos guerreiros nórdicos de qualquer maneira — e decidiu se apropriar disso.
“Para nós, não se trata apenas de estética, mas de valores: comunidade, espírito de equipe e união,” disse a presidente da entidade, Lise Klaveness.
Intencional ou não, a estratégia de marketing deu certo.
A Noruega nunca foi uma potência futebolística.
O país faz este ano apenas a sua quarta participação em Copas do Mundo, sendo que a última havia sido em 1998. Mas algo mudou de lá para cá.
A Federação investiu na formação de atletas e teve a sorte de ser brindada com craques como Erling Haaland e Martin Ødegaard, o que mudou a seleção de patamar.
Nas eliminatórias para a Copa deste ano, os noruegueses venceram todos os oito jogos que disputaram, inclusive dois contra a Itália, e carimbaram o passaporte para o torneio. Haaland marcou 16 gols.
Foi durante esta campanha que a inspiração viking começou a ganhar força.
Em 2023, a Nike criou uma primeira fonte inspirada em runas nórdicas tradicionais para estampar os nomes e números dos jogadores noruegueses, mas a grafia ficou tão engarranchada que a FIFA proibiu o seu uso e exigiu algo mais legível.
Para a Copa, a Nike pegou outra vez nas runas para inspirar a fonte do uniforme da Noruega, dessa vez simplificando as linhas para facilitar a leitura.
Além disso, fez um segundo uniforme todo preto, em homenagem aos berserkers – uma tropa de elite viking que atuava na linha de frente das batalhas.
O fardamento está vendendo como água e, segundo veículos noruegueses, está em falta no país.
Enquanto isso, nas arquibancadas, os torcedores comemoraram o bom momento da seleção com a criação de uma coreografia que simula a remada de um barco – como os vikings faziam – acompanhada do grito “Ro!”, que significa, literalmente, remar.
Houve quem dissesse que o canto ficou parecido demais com as palmas ritmadas da torcida islandesa; que os vikings noruegueses, que velejavam em alto-mar, não utilizavam remos; ou até que a referência a tribos bárbaras do milênio passado era problemática. Mas a coisa pegou.
Com o auxílio de um tambor tocado pelo capitão Odegaard, os jogadores da seleção passaram a reproduzir a coreografia em campo após as vitórias, e os noruegueses têm acompanhado onde quer que estejam. Até o Parlamento e o primeiro-ministro do país aderiram.
Haaland, uma máquina de fazer gols de quase 2 metros, já havia posado vestido de viking para o fotógrafo escocês David Yarrow uns anos atrás, e teve uma ideia: convencer toda a seleção a posar para uma foto temática antes de viajarem para a Copa.
A inspiração até faz sentido, já que as tribos que viviam onde hoje fica a Noruega chegaram de barco à América há mais de 1000 anos, muito antes de Colombo. Só que a chance de ficar brega era gigante.
Preocupado com o que as más línguas iriam dizer, Yarrow decidiu investir pesado na produção.
Ambientada em um fiorde (uma entrada do mar entre as montanhas) real, a sessão de fotos contou com barcos e roupas típicas e até um pier de madeira semelhante ao que os guerreiros nórdicos construíam.
Especialistas do Museu Nacional da Noruega foram consultados para garantir que as referências estavam historicamente adequadas e, na média, o resultado agradou aos noruegueses.
(Ajudou o fato de que o fotógrafo irá vender algumas cópias da foto em diferentes tamanhos para ajudar instituições de caridade no país.)
Na primeira semana de junho, enquanto a seleção se preparava para cruzar o Atlântico como seus antepassados fizeram, a foto foi publicada em um anúncio no jornal local Aftenposten com uma legenda intimidadora:
The Vikings are coming.
O Brasil não conseguiu afundar o barco. Os próximos adversários que se cuidem.




