Na disputa pelos investimentos para construção de data centers, o Paraguai pode ficar fora? Veja o motivo.
Por Aramis Merki II
Na disputa entre países para receber os investimentos em infraestrutura para a inteligência artificial (IA), o Paraguai tenta chamar a atenção pela sua abundância em energia elétrica renovável. O país tenta atrair atenções para si com outros argumentos, entre eles o bônus demográfico: a população jovem representa um potencial mercado consumidor. Nesta campanha, há inclusive investimentos de US$ 20 milhões para criar um distrito digital na capital Assunção.
A narrativa parece sedutora. O Paraguai, de fato, produz mais energia do que consome, graças às usinas de Itaipu e Yacyretá. O problema é que existe uma grande distância entre ter energia sobrando e se tornar um polo global de IA.
Em um evento recente do setor de data center em São Paulo, o executivo de uma empresa que constrói data centers apresentou o grande “porém”. Foi sem rodeios. Quando foi perguntado sobre os projetos que existem no Paraguai, ele rebateu: “Existe projeto, mas não tem cliente.” A plateia riu. E o executivo foi além: “Tem cabo submarino chegando no Paraguai?”.
O questionamento talvez seja mais relevante do que aparenta. O mercado de infraestrutura para IA não busca apenas megawatts baratos. Busca escala, conectividade internacional, contratos de longo prazo e previsibilidade jurídica.
O detalhe do cabo submarino citado pelo executivo parece técnico, mas não é periférico. Data centers de IA dependem de latência baixa e integração direta com rotas globais de tráfego. O Paraguai é um país sem litoral. Isso significa depender da infraestrutura de terceiros, notadamente o próprio Brasil, para chegar às grandes redes internacionais.
Há ainda o problema da densidade econômica, apesar de o governo paraguaio alardear o fato de sua população ser jovem. Os grandes processadores de dados tendem a operar próximos de mercados consumidores relevantes e de ecossistemas empresariais já consolidados. Numa disputa entre Paraguai e Brasil por data centers, apenas um tem demanda doméstica em escala continental.
É por isso que até Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo, resolveu fazer um pedido, em tom de brincadeira, a Fábio Coelho, presidente do Google no Brasil. “Infelizmente, muitas empresas daqui estão indo para lá [Paraguai], uma perda terrível para nós. A Google não vai não, fabrica aqui pelo amor de Deus, cara!”
Será que o Paraguai deixou de ser apenas uma curiosidade energética e entrou, de fato, no radar corporativo da região? A conferir. Mas o fato é que a corrida global por infraestrutura de IA tem demandas que vão além da energia barata que nosso vizinho proporciona.




