A nova estratégia da Agrolend está rendendo frutos. Depois de migrar de uma abordagem de varejo em direção ao modelo de banco de atacado, a instituição financeira fundada pelos irmãos André e Alan Glezer registrou o melhor desempenho de sua história.
Enquanto os grandes bancos restringiam a oferta de financiamento no campo, a carteira de crédito da Agrolend triplicou de tamanho, atingindo R$ 968 milhões em dezembro de 2025.
Os dados fazem parte do balanço anual da companhia, que ficou pronto no fim de março após a conclusão dos trabalhos de auditoria da Grant Thornton.
O salto na carteira ajudou a Agrolend a expandir a receita. No ano passado, a financeira registrou R$ 162 milhões em receitas, um crescimento de 140%.
Quando se excluem os efeitos contábeis do programa de stock options, que não possuem impacto sobre o caixa, o lucro líquido da Agrolend atingiu R$ 32 milhões. É o melhor resultado já reportado.
“Esse é o primeiro lucro significativo que temos”, disse André Glezer, em entrevista ao The AgriBiz.
Fundada em 2021, a Agrolend operou com prejuízo no primeiro ano de existência, o que é comum para startups que estão em estágio inicial, e ficou praticamente no zero a zero de 2022 a 2024.
A expectativa dos fundadores é continuar acelerando neste ano. Os indicadores do primeiro trimestre, aliás, corroboram essa visão. “Estamos rodando com receita anualizada de mais de R$ 300 milhões, com mais ou menos R$ 70 milhões de lucro”, acrescentou André. A ambição é fazer R$ 2 bilhões de carteira em 2026.
As razões do crescimento
Essa mudança de patamar é um reflexo do novo perfil do crédito concedido pela Agrolend.
No lugar da pulverização de produtores rurais e revendas agrícolas, a instituição financeira passou a trabalhar com cheques maiores, concedidos a indústrias de insumos agrícolas de grande porte.
Nesse processo, o tíquete médio das operações cresceu substancialmente, saindo de R$ 400 mil para cerca de R$ 4 milhões.
Com a nova abordagem, a Agrolend passou a ter como clientes algumas das maiores indústrias de insumos agrícolas, incluindo nomes como Basf, Bayer, FMC, Mosaic e UPL.
A mudança de perfil foi destacada pela Moody’s. “A concentração por cliente vem aumentando, em consequência da estratégia de ser mais atuante com garantias de grandes indústrias, passando a ter menos concessões, mas com tíquetes maiores e uma melhor qualidade de crédito”, escreveu a agência de classificação de risco, em um relatório divulgado em janeiro.
Segundo Alan Glezer, o novo modelo permite um crescimento mais rápido. No atacado, a Agrolend consegue estruturar operações customizadas para as grandes indústrias, que demandam cheques maiores. “Só em dezembro liberamos R$ 350 milhões”, disse.
As soluções vão desde a securitização dos recebíveis, o que pode incluir a assunção de riscos de revendas e produtores, à concessão de crédito em que o risco está na indústria, que possui um melhor perfil de crédito.
Com isso, a Agrolend pode navegar melhor no ambiente de riscos, o que ajuda a manter a inadimplência em níveis saudáveis. Em 31 de dezembro, os atrasos acima de 90 dias ficaram em apenas 0,7%, uma taxa ínfima quando se compara com a média do mercado.
Pouco alavancada
Os irmãos Glezer atribuem a inadimplência baixa ao perfil conservador, algo que já rendeu críticas no mercado. Em comparação a outros bancos, a Agrolend se alavanca pouco, o que afeta o retorno sobre o capital próprio.
Em 2025, por exemplo, a carteira de crédito da Agrolend representava apenas 1,7 vez o patrimônio líquido da financeira.
“Grandes bancos rodam com 10 vezes, mas sempre tivemos uma cabeça conservadora. Estamos só em um setor e o agro é um setor volátil. É prudente rodar com alavancagem muito inferior”, justificou Alan.
Apesar do conservadorismo, ele vê espaço para uma alavancagem maior preservando os níveis de segurança. Neste ano, a Agrolend pode chegar em 3 vezes quando bater R$ 2 bilhões de carteira.
Na gestão do passivo, a segurança também dá o tom. Em dezembro, o prazo médio dos passivos da Agrolend era de 340 dias. Enquanto isso, a carteira de crédito vencia, em média, em 120 dias.
Tipicamente, o funding da Agrolend é obtido nas emissões de LCAs, que costumam ir a mercado abaixo do CDI, um trunfo para a companhia quando comparado ao custo de capital de fintechs em geral.
Em dezembro, a financeira tinha mais de R$ 700 milhões em LCAs captadas em plataformas de investimentos como XP, Itaú, BTG Pactual e Nubank, entre outras.
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Na entrevista, os irmãos Glezer minimizaram a disputa societária travada com Valéria Bonadio, cofundadora da Agrolend.
“É um assunto antigo e resolvido. Já foi julgado e arquivado. Temos total confiança que a Agrolend seguiu 100% dos processos e agiu de acordo com as regras estabelecidas”, disse Alan.
A executiva deixou as operações da financeira há mais de um ano, por determinação aprovada pelo conselho de administração, que é composto por investidores como a Creation, que liderou a última rodada da Agrolend.
O afastamento não foi consensual e o assunto foi parar na Justiça, com Bonadio tentando reingressar como administradora da Agrolend, mas o pleito foi recusado pela Justiça em primeira e segunda instância.




