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sexta-feira, setembro 4, 2026

o que isso revela sobre o cenário global?

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Vitor Guedes, especial para o Bora Investir
Com um crescimento de 0,5% no Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, o Brasil atingiu a quinta posição num ranking que analisou o crescimento trimestral da economia de 50 países no mesmo período, conforme levantamento feito pela agência de classificação de risco Austin Rating, com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Os dados mostram que o país ficou à frente de nações que compõem o G7 e praticamente toda a Zona do Euro, com exceção da Irlanda, que encabeça a lista com um crescimento de 1% no período. À frente do Brasil aparecem também a Indonésia, que teve o segundo melhor crescimento no período (0,9%), seguida por Angola (0,7%) e Malásia (0,6%).

Contudo, o que essa posição do Brasil, acima das principais potências mundiais mesmo ao apresentar uma tendência de desaceleração, com um crescimento modesto no trimestre, revela sobre o contexto macroeconômico global?

Cenário mundial afetado por guerras e incertezas

O principal catalisador da economia global no momento, o conflito no Irã, tem desencadeado uma flutuação na cotação do petróleo e provocado disrupções em setores-chave como energia, combustíveis, fertilizantes e nas cadeias logísticas. O Estreito de Ormuz, rota de passagem para ⅕ do volume total de petróleo comercializado no mundo, segue fechado desde a eclosão do conflito, sem previsão de reabertura.

Otaviano Canuto, economista, ex-vice-presidente do Banco Mundial e membro sênior do Policy Center for the New South, explica que o que possibilitou ao Brasil um crescimento acima da média no período foi a maior absorção dos impactos da guerra, especialmente por conta da forte comercialização do petróleo e das commodities agrícolas.

“Do ponto de vista dos preços, o aumento do barril de petróleo beneficiou o crescimento do país, com efeitos de termos de troca muito favoráveis ao Brasil”, diz, acrescentando que, no cenário agro, a posição consolidada do mercado brasileiro tende a favorecer o país em meio à demanda contínua por bens agrícolas. 

Os choques de oferta do petróleo têm encarecido os preços do setor energético, o que tem levado a uma redução no crescimento econômico e a uma maior pressão inflacionária nas principais economias mundiais, como a Zona do Euro, os Estados Unidos e o Canadá. 

O Brasil, por sua vez, conseguiu aliviar esse impacto devido à produção doméstica de petróleo e à adoção de uma política de repasse de preços que visa mitigar os impactos da volatilidade, algo que os EUA, por exemplo, não conseguiram devido ao elevado consumo interno e ao fato de o preço dos combustíveis em solo americano ser definido pela lei de oferta e demanda.

O uso abrangente de biocombustíveis e de matrizes energéticas limpas, como hidrelétricas e energia solar, também foi crucial nessa estabilidade do mercado brasileiro, o que torna o setor elétrico nacional menos dependente de combustíveis fósseis.

Brasil não está exatamente ileso

O fato de o Brasil ter conseguido mostrar alguma resiliência frente à disrupção provocada pelo conflito no Oriente Médio não necessariamente coloca o país numa posição blindada em relação aos impactos comerciais.

Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, ressalta que o país também deve sofrer uma pressão inflacionária sobre o setor de alimentos, fomentada pelos desdobramentos da guerra e pela incerteza provocada pelo El Niño deste ano.

“Existem riscos que ainda não foram materializados e que podem afetar a inflação mais para frente. Os choques do preço do petróleo, a instabilidade geopolítica, esse super El Niño, tudo isso pode elevar choques de oferta e pressionar o custo inflacionário dos alimentos”, afirma.

O fator clima é particularmente sensível para o AGRONEGÓCIO, especialmente ao considerar que o setor tem sido um pilar do crescimento econômico nacional. No segundo trimestre, a agropecuária apresentou uma alta de 2,8%, sendo o principal destaque positivo do período. 

Nesse aspecto, Canuto destaca que, apesar dessa posição consolidada no agro, o que é positivo para a economia brasileira, o país precisa pensar também em investir em produtividade e reformas a fim de se manter competitivo dentro do mercado global e evitar possíveis efeitos negativos.

“Evidentemente, agricultura e petróleo não serão suficientes para puxar o crescimento do país como um todo para patamares mais altos. Aí entra a questão de aprimorar a produtividade e a competitividade nos outros setores”, diz.

Tendência de desaceleração

Após os números do segundo trimestre, o mercado já trabalha com a expectativa de um crescimento menor do PIB brasileiro em 2026.

O ASA projeta um crescimento de 0,2% no terceiro trimestre e uma expansão de 1,8% para o PIB de 2026, ante 2% na previsão anterior. 

Leonardo Costa, economista do ASA, pontua que os principais gargalos são os segmentos mais vulneráveis ao ciclo econômico doméstico, ou seja, aqueles que sofrem maior impacto em face da deterioração do poder de compra ou do aumento dos juros e da inflação, como comércio e serviços.

“A avaliação continua sendo de uma desaceleração gradual ao longo de 2026 […] Os indicadores anteriores sugerem que essa perspectiva de crescimento fraco já aparece no terceiro trimestre”, afirma.

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